Renato Bezerra de Mello

PASSAGEM ILEGÍVEL | 2016

 

Nesta obra, transcrevi, repetidamente, dois relatos de Marguerite Yourcenar sobre um mesmo acontecimento: o enterramento das cinzas de Grace Frick, com quem viveu por 40 anos. O primeiro está no seu diário pessoal, um relato curto e permeado pela emoção dos primeiros momentos. O segundo foi feito em resposta a uma entrevista, no qual encontramos, no lugar da mulher, a célebre romancista.

Os dois relatos são igualmente bonitos e comoventes, sendo o segundo uma pequena peça literária. A sobreposição da escrita na minha obra tem origem na dúvida de Yourcenar em tornar pública ou não esta parte da entrevista, assim como, nas passagens ilegíveis do seu diário íntimo.

 

  • escrita em fita impressora para máquina de escrever sobre papel vegetal

  • 32 x 57 cm (díptico)

  • EXPOSIÇÕES: “Aquilo que nos une”, Caixa Cultural, Rio de Janeiro, Brasil

 

Fotografia: Renato Bezerra de Mello

POUCO A POUCO, SE FAZENDO, SE RASURANDO E SE REESCREVENDO | 2015

 

Encoberto por grafite artesanal, este caderno marca o início de uma pesquisa com o material e um acervo sobre a prostituição. As folhas em branco do caderno me levaram a procurar outros suportes, cujo conteúdo possibilitasse tratar da fragilidade da memória, como tensão entre a lembrança e o esquecimento.

 

  • caderno em papel Vergé, costura manual e corte medieval, documentos antigos, grafite artesanal

  • 15 x 31 x 2 cm

Fotografia: Pat Kilgore

Iniciei a minha atuação como trabalhador de arte (expressão cunhada por Cildo Meireles), no ano 2000, depois de 16 anos dedicados à arquitetura e ao restauro de bens tombados pelo Patrimônio Histórico. No momento da virada, provocado pela participação em um programa de intercâmbio entre a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, e a École Nationale Supérieure des Beaux Arts, em Paris, tomei a decisão de que, como na arquitetura, iria trabalhar com questões relacionadas à memória, na sua tensão entre a lembrança e o esquecimento.

Em 2002, em Paris, participei de uma primeira exposição coletiva na qual apresentei uma instalação que reunia memória familiar e coletiva: resgatando antigas fotografias abandonadas em armários e gavetas e um pequeno objeto popular, em plástico colorido, que servia para visionar essas imagens, reproduzidas em diapositivo preto e branco. Nessa obra inicial, interessou-me, além da memória das pessoas, aquela das coisas que as cercam e que, numa velocidade crescente, caem em desuso: as fotografias, os pequenos monóculos em plástico e a película fotográfica que completam Visionários são coisas que andam esquecidas.

Em prosseguimento à minha pesquisa artística, lancei mão de cartas de família e folhas de papel-carbono, sobre as quais escrevi e desenhei incansavelmente; decidi bordar, usando tecidos e linhas que já não eram mais fabricadas; destruí linhas de seda, transformando-as em quase pó para depois criar minúsculas bolinhas coloridas; quebrei uma coleção de copos e taças de cristal, que havia reunido em vinte anos; desgastei com lixa d’água pequenos cubos de giz para recriar uma coleção de bolas de gude perdida na infância; e inventei um diário em cartões-postais, que me enviei pelo correio, ao longo de muitos anos.

Recentemente, por ocasião de uma exposição no Rio de Janeiro, cidade onde vivo e trabalho atualmente, recebi a seguinte mensagem de um amigo: você é um artista que a cada dia sedimenta uma direção para a ideia da arte como processo de conhecimento e sua via tortuosa. Ando pensando bastante nisso, com especial apreço pela via tortuosa.

UMA INFINITA COMBINAÇÃO DE ESFERAS | 2012

Exercitando mecanismos da invisibilidade, realizei, sobre acúmulos de folhas de papel vegetal, esse conjunto de esferas, imagem geométrica recorrente em minha obra, e que tem se apresentado tanto em cadernos e finos papéis, quanto em configurações tridimensionais.

 

  • pastel a óleo sobre folhas papel vegetal 92,5 g

  • 155 x 135 cm

  • EXPOSIÇÕES: “Errático, errante”, Galeria Inox, Rio de Janeiro, Brasil

 

Fotografia: Wilton Montenegro