Leila Danziger

Já de início, fui capturada por uma súbita e inesperada subversão, pois a artista se serve da palavra plasticamente e da imagem como escrita, o que bagunça os caminhos de apreensão do visto e do ouvido, produzindo uma pequena ferida, um furinho, índices de um troumatisme e de uma abertura ao novo, sob a forma de um esvaziamento dos sentidos previamente constituídos, o que confere à experiência do espectador um breve sentimento de desorientação. Usualmente utilizamos os jornais para estarmos informados e antenados com os fatos do mundo que habitamos. Mas Leila lê os jornais descascando-os, apagando-os, extraindo sua película, esfolando a linguagem, para então, uma vez erodida a matéria-jornal, “turvá-la de poesia”.

Lucíola Freitas de Macêdo

A escrita-troumatisme de Leila Danziger

“Já não é possível dizer mais nada / mas também não é possível ficar calado”.

Manuel António Pina

Intercepted by the word, the look now passes for each piece of “Proper Names”. We then realize that we are before the same genos, a single lot, delimited by the artist's family name. Our total ignorance of the bodies and feelings that had animated these names, lending them, once, specific human and affective density, make them now excessively equals and despite their orthographic and phonetic differences, they are there only as traces. The graphics hiatus of these ciphers just named and mechanically printed, compress in the empty dozens of existences without biography or identity.

Fernando Cocchiarale

Proper names

L'accumulation dans le travail de Leila Danziger suggère une topographie étendue, un espace qui va bien au-delà de l'espace occupé par le matériel recueilli. Ses amoncellements de papiers, de vaisselles brisées, de tampons cohabitent avec la tâche infinie de l'organisation traversée par la perte et l'absence. Des listes, des inventaires et des collections attestent de l'entropie, de la détérioration et de l'oubli que laissent transparaître ces accumulations. Ces formes toujours inachevées systématisent le passage du temps qu'elles tentent de renverser. Les mésaventures des événements et des matériaux détériorés figurent une survivance qui exige d’être nommée. Il y a effectivement un problème de langage dans l’œuvre de Leila Danziger. Ruines empilées et inventaires impossibles laissent entrevoir la parole comme question, une parole qui veut résister physiquement à la disparition, même si elle reconnaît l’impossibilité.

Luiz Cláudio da Costa

Poétique de la mémoire et effet-archives dans le travail de Leila Danziger

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Há uma frase do Godard, em Histoire(s) du Cinema, de que gosto muito: “somente a mão que apaga, pode escrever”. Também o gesto tão célebre do Rauschenberg ao apagar o desenho do De Kooning me fascina sempre. Demorei muito para escrever poesia talvez porque precisasse realizar alguns operações simbólicas de apagamento. Para escrever (ou para produzir arte), acredito ser essencial esquecer o que (supostamente) é a poesia e a arte. Se para escrever é preciso se apropriar da língua que nos é dada, aquela a qual nos submetemos, essa apropriação implica certa violência também. Apagar é uma violência necessária para que a escritura surja.

Leila Danziger

Entrevista completa aqui

Destroços

 

dessa vez

creio que o início de tudo

foi a persiana que esqueci aberta

deixando que o sol esquentasse

em minha ausência

furiosamente

dias e dias

os versos de Celan

acumulados sobre a mesa

as palavras

     de madeira e borracha

os carimbos

começaram a derreter e a gaguejar

- lallen und lallen -

balbuciar e repetir

     :destroços celestes

     :cinza-e-cinza Ho-sana anéis-almas

de uma forma não prevista no início do projeto

que queria apenas escavar e manobrar

os versos

como se faz com a própria

     terra-areia-ar-eu-você-Ossip-Marina

e tantos outros nomes

todos os nomes

impronunciáveis

derretidos

fundidos

aos jornais

que cresceram como erva daninha

em minha ausência

furiosamente

dias e dias

a linguagem informativa

acumulada em pilhas

que era preciso desfazer

esvaziar

apagar erodir a matéria de jornal

turvá-la de poesia

mas percebi

- surpresa -

o desastre

o desvio

tudo fora feito

sem mim

DANZIGER, Leila. Três ensaios de fala. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012.

(...)

Käme,

käme ein Mensch,

käme ein Mensch zur Welt, heute, mit

dem Lichtbart der

Patriarchen: er dürfte

spräch er von dieser

Zeit, er

dürfte

nur lallen und lallen,

immer-, immer

zuzu.

 

("Pallaksch. Pallaksch.”)

 

Paul Celan

(...)

S’il venait,
venait un homme,
venait un homme au monde, aujourd’hui, avec
la barbe de clarté
des patriarches : il devrait
s’il parlait de ce
temps, il
devrait bégayer seulement, bégayer,
toutoutoujours
bégayer.

 

("Pallaksch. Pallaksch.")

 

Paul Celan (traduction de  Martine Broda)

(...)

Should,

should a man,

should a man come into the world, today, with

the shining beard of the

patriarchs: he could,

if he spoke of this

time, he

could

only babble and babble

over, over

againagain.

 

(“Pallaksck. Pallaksch.”)

 

Paul Celan (translated by Michael Hamburger)

(...)

Viesse

viesse um homem

viesse um homem ao mundo, hoje, com

a barba de luz dos

Patriarcas: ele poderia

se falasse ele deste

tempo, ele

poderia

apenas gaguejar e gaguejar

sempre –, sempre –,

continuamente.

 

(”Pallaksch. Pallaksch.”)

 

Paul Celan (tradução L. Danziger)

Images:

1. Leila Danziger. Hebrew Lesson, 2011

2. Leila Danziger. Sunday's screening #14 | Galerie Dix9 | Paris

3. Leila Danziger. Image/texte, un paradigme

4. Leila Danziger. Pallaksch Pallaksch, 2010. Museu de Arte Contemporânea, Niterói, Brasil.

5. Leila Danziger, Bildung, 2014

6. Leila Danziger. Nomes Próprios (livro), gravura sobre papel e óleo de linhaça (48 páginas).

7-8. Leila Danziger. Pallaksch Pallaksch, 2010. Museu de Arte Contemporânea, Niterói, Brasil.

9-12. Leila Danziger. To-stand-for-no-one-and-nothing (books).

Sources: 

http://www.leiladanziger.net

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