Fernand Deligny

Deligny, Wander Lines, Cuisine.07

Segundo Deligny, os mapas são como telas onde o que aparece são imagens furadas – não imagens onde nós poderíamos nos reconhecer ou reconhecer algo de preciso, mas imagens puramente descritivas, sem profundidade, sem significância e que evacuam o sujeito. São, como dizíamos acima, o contrário de imagens-espelho. No texto Les cahiers de l’immuable, Deligny diz que os mapas “esclarecem essa extraordinária sensibilidade da criança psicótica à ordem das coisas. [...] Sensibilidade ao corpo comum, rede de marcos [repères] e de traços que se estendem entre um e outro, que não são nem um, nem outro”7 . A crítica à linguagem feita por Deligny é na verdade uma crítica ao sujeito formado, que alcançou o simbólico, que é por ele estruturado e que impõe seu modo de ser como o único possível e existente. Mas se nas psicoses e no autismo profundo o acesso ao simbólico é interrompido, fraturado ou inexistente, então esse aparelho-linguagem não funciona e é por uma outra via que se terá que trabalhar. Os mapas são assim um modo de desviar da linguagem e de ver o que não pode ser visto por um sujeito justamente por causa da sua linguagem – ou seja, por causa da posição que ele ocupa enquanto sujeito. A fórmula de Deligny “ce qui ne se voit pas” (o que não se vê) é emblemática: não é possível ver por causa da reflexividade, desse se, dessa posição que é a do sujeito e do verbo conjugado na pessoa. É o que diz Deligny em Le croire et le craindre : “Essa prática de guardar traços em uma folha transparente de modo que possa aparecer, em filigrana, o que, do visível, não pode se ver, de tanto que o aparelho de ver se confunde com o aparelho de linguagem”

Marlon Miguel

Revista Trágica: estudos de filosofia da imanência – 1º quadrimestre de 2015 – Vol. 8 – nº 1 – pp.57-71

Deligny, Wander Lines, Cuisine.02

Tout au long de ses essais, Fernand Deligny inscrit la logique de ses expérimentations dans l’histoire de son enfance et dans l’expérience décisive que fut pour lui le passage de la porte de l’école. «Il fallait que je rentre là-dedans», écrit-il. Mais comment faire? «En fait, reprend-il, j’y étais rentré; et, avec une petite fille, on faisait des traces. On faisait des rues dans la cour et elle allait faire les courses à l’épicerie et à la boulangerie. Et alors, ces traces qu’on faisait, c’était du dehors qui était dedans. Mais les autres piétinaient sans cesse nos traces. C’était dramatique. Il fallait les refaire sans arrêt.»

Cette histoire nous met face au choix qui se pose lorsque nous parlons de pédagogies radicales : que faire du dehors? De la ville? Des habitants? Du commerce entre les uns et les autres? Les laisser dehors et construire l’école comme un lieu préservé? Les impliquer dedans, en veillant à ce que les frontières entre le monde et l’école restent perméables? Dans un cas, il s’agira de repenser l’institution scolaire. Dans l’autre, de s’interroger sur le milieu dont l’école peut être ou non le lieu.

Catherine Perret

(Mi)lieux de vie: de la pédagogie à la cartographie

1913, Bergues, França - 1996, Graniers, França

​Fernand Deligny dedicou sua obra à vida em comunidade junto a profissionais dedicados a acompanhar e compreender a humanidade de crianças e adultos carentes de linguagem e de comunicação verbal. Produziu ensaios, prosa poética e ficção que se complementam com filmes e outros documentos visuais – como fotografias, desenhos, mapas e as “linhas de errância”, que registravam os movimentos de crianças autistas em comunidades francesas. Sua obra é o produto de um pensamento radical a partir do qual se questionaram as convenções do humanismo burguês, a disciplina psiquiátrica, a psicanálise, a educação formal, a etnologia, a antropologia, a imagem, a política e a primazia logocêntrica da linguagem na cultura ocidental.

Deligny, Wander Lines, Cuisine.04

FERNAND DELIGNY found many ways of describing himself: primordial communist, nonviolent guerrilla, weaver of networks, cartographer of wandering lines. A visionary but marginalized figure often associated with the alternative and anti-psychiatry movements that emerged in the decades after World War II, Deligny (1913–1996) remains difficult to categorize — an enigmatic sage. Beginning in the 1950s, Deligny conducted a series of collectively run residential programs — he called them “attempts” (or tentatives, in French) — for children and adolescents with autism and other disabilities who would have otherwise spent their lives institutionalized in state-run psychiatric asylums. After settling outside of Monoblet in the shadow of the Cévennes Mountains in southern France, Deligny and his collaborators developed novel methods for living and working with young people determined to be “outside of speech” (hors de parole).

Militantly opposed to institutions of every kind — he occasionally referred to his small group as living like a band of nonlethal guerillas — Deligny was critical of the dominant psychiatric, psychoanalytic, and positivist educational doctrines of the time. He rejected the view that autism and cognitive disability were pathological deviations from a preexisting norm. He did not try to force the mostly nonspeaking autistics who came to live with them to conform to standards of speech. Instead, Deligny and his collaborators were “in search of a mode of being that allowed them to exist even if that meant changing our own mode.” They sought to develop “a practice that would exclude from the outset interpretations referring to some code” — anticipating, by several decades, some of the central tenets of the neurodiversity and autistic self-advocacy movements: “We did not take the children’s ways of being as scrambled, coded messages addressed to us.”

By Leon Hilton

Mapping the Wander Lines: The Quiet Revelations of Fernand Deligny

Photogramme du film Le moindre geste, réalisé par Fernand Deligny entre 1962 et 1971

Ces cartes sont tirées des Cartes et lignes d'erre, Paris, L'Arachnéen, 2013

Ces cartes sont tirées des Cartes et lignes d'erre, Paris, L'Arachnéen, 2013