Bianca Madruga

Bianca Madruga é uma artista carioca, nascida em 1984. Seus trabalhos utilizam diferentes técnicas e materiais, principalmente linha, sal e metais oxidáveis. Uma das fases da sua pesquisa é atravessada por um acentuado interesse pela escrita, adotada, obviamente, no campo ampliado da arte contemporânea.  O texto a seguir aborda uma fase ulterior do seu trabalho e foi publicado no site da artista (http://biancamadruga.wixsite.com/):

Dois poetas servem como ponto de partida para refletir sobre a série de trabalhos mais recentes da artista visual Bianca Madruga. Por um lado, sua imaginação dos objetos esquecidos dialoga abertamente com o projeto estético do grande poeta francês Francis Ponge, ressoando especialmente O Partido das Coisas, de 1942. Desse modo, em sua pesquisa visual a palavra é enraizada através da linguagem das coisas, no instante em que o olhar da artista se torna sensível ao silêncio – ou à enunciação menos presunçosa – porém não menos resistente, de cada ínfimo objeto que há no mundo.

 

Daí o protagonismo das conchas em boa parte de seu trabalho: matéria tão presente e, ao mesmo tempo, simples vestígio de um corpo que se ausentou: “essa concha, parte de seu ser, é ao mesmo tempo obra de arte, monumento. Ela perdura mais tempo que eles. E é este o exemplo que nos dão. Santos, fazem obra de arte de sua vida (...). Sua própria secreção se produz de modo a se enformar. Nada de exterior a eles, a sua necessidade, a sua precisão, é obra sua. Nada de desproporcional (...) a seu ser físico. Nada que não lhes seja necessário, obrigatório” (Francis Ponge, a lição das conchas. In: O Partido das Coisas).

 

 

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Sem título, Série Escritos

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Entretanto, as conchas no trabalho de Bianca não dizem apenas com palavras. Seus poemas – permito-me chamar assim seus objetos (ou objogos) – ultrapassam, borram as margens entre os gêneros e questionam tanto a força da língua quanto a primazia da imagem. Os belos títulos, por exemplo, não são apenas nomenclaturas. Eles se integram completamente a cada imagem, atribuindo-lhes uma nova espessura, abrindo lacunas e impondo ainda mais dificuldades à interpretação. Pois antes de serem conceituais estes trabalhos são gestos, pegadas, impressões que a artista deixou com o peso do seu próprio corpo. Contam a história do seu próprio desaparecimento, assim como a da permanência das conchas. Isso talvez fique claro em coleções de objetos ou séries, como no caso de “Guardar”.

 

Para a artista, guardar não se basta nas acepções dicionarizadas (vigiar, manter, conservar), remetendo-nos deliberadamente a um belo poema homônimo de Antonio Cícero, em que “guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la”, mas, ao contrário, “estar por ela ou ser por ela”. Por isso, quando Bianca joga no mar um livro retirado de uma maleta de couro cheia de fotos e objetos da infância, indica que a melhor forma de guardar suas memórias talvez não seja trancafiando-as no sótão ou numa gaveta do criado mudo, mas devolvendo-as ao mundo.

 

Essa outra concha – o livro – é lançada ao mar com um barbante, fio que tece a delicada resistência humana às palavras. O mesmo fio que nos liga aos nomes de cada coisa. Em instantes o barbante arrebenta e o livro é tragado pelo mar, os papéis flutuam, assumem o aspecto de pequenas arraias brancas e moluscos, depois são definitivamente tragados pela imensidão. E as palavras tornam-se, por fim, apenas uma sensação de tudo que é (ou pode estar) presente:

 

 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

 

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

 

“Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

 

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro

Do que um pássaro sem vôos.

 

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar”.              

 

(Antonio Cicero, Guardar)

 

 

Marcelo Reis de Mello

Rio de Janeiro, agosto de 2014.

Sem título - Série Escritos

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